Outro sábado, quase o mesmo: calor, abelhas, cozinha.
Trouxe bandaid, água, e aquela esperança de picar em menores pedaços tudo que por minhas mãos passeassem. A cozinha é sempre silêncio no começo, quase casa vazia, manhã de preguiça, início de férias. Chiffonade, sabe? Sim, acho que sei. Uma caixa inteira de couves, folhas de todos os tamanhos.
Pra quem não conhece, chiffonade é um termo francês (como outros tantos, na cuisine ;), corte de folhosos em forma de fitas, em tiras finas. Para nós brasileiros, é a típica “couve fininha” da feijoada. Pois bem, eis-me aqui, entre faca, folhas e uma lentidão nos gestos. Numa cozinha real descobrimos como o tempo passa, não no relógio, não no calendário: de uma panela à outra, de um gesto à tantos outros. Como em tudo na vida, testamos várias formas de resolver os mesmos problemas. Como em quase tudo na vida, criamos bolhas em recantos nossos por acharmos que é força o que nos falta. Não é. Força temos. O que não temos, alguns, é flexibilidade, fluidez. Porque o tempo é coisa que se movimenta, é coisa que, feito água, corre, percorre, e nós, tentamos forçosamente, pará-lo. E em algum momento descobrimos que temos é que saber ir, fluir, (sim, ruir às vezes). No movimento cadenciado da faca nos rolos de couves que fiz, a bolha crescendo entre as falanges do indicador, e eu descobrindo que a música dançada na cozinha era outra, era rápida, e eu aqui, escoar de dor(es), sem saber que o tempo, também pulsa. É no pulso que está a mágica. É o pulso que nos conecta ao sangue que flui, ao tempo que (es)corre, é o pulso (não tenho como fugir de Titãs: “o pulso, ainda pulsa”) que faz com que mão e corpo dancem a mesma música e toquem (n)a vida em gesto pleno. Quase ao terminar a caixa, o colega me diz: “se tu enrolar no máximo três folhas por vez, o movimento fica mais leve”. Eu, que na caixa inteira, enrolei folhas e mais folhas tentando ganhar tempo (tempo não se ganha, não se acumula), descubro que no máximo três folhas me dá leveza, deixa o movimento compassado, fluir. Faltando nove folhas para o fim. Sim, diversas vezes descobrimos que menos é mais: menos peso, mais fluidez. Diversas vezes vamos descobrir, quase no fim da caixa. E é bom. Descoberta é aquele “como eu não pensei nisso antes?”. Porque o tempo é assim: é pra ser, aqui e agora.

Dicas da semana:

  1. Se da primeira vez você (e eu) precisávamos cortar pedaços menores, em chiffonade eu (e você) descobrimos que sempre pode ser mais fino;
  2. Depois das couves existem ainda batatas-doces para serem descascadas, alhos-porós, brócolis, cenouras: os legumes são uma legião!;
  3. A(s) bolha(s) saem das mãos e entram nas (nossas) vidas;
  4. O tempo é algo palpável – sim, entre os dedos, na palma da mão;
  5. Nós podemos saber o que é chiffonade, mas fazer chiffonade é quase sempre (im)perfeito;
  6. Tem veias nos seus pés que você nem desconfiava. (Constatação apenas para comprovar que no pulso, nos pés, no meu – e seu – corpo todo, sangue e tempo, fluem, E às vezes, se (con)fundem).

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