O calor continua. 

O domingo inicia. 

Pego a estrada e chego novamente ao restaurante acordando. 

Mas hoje sem o peso do “primeiro dia do resto de nossas vidas”, já é muito menos angustiante. Já tenho o “fazer muito menor”, e “não atrapalhem”, então… A cozinha acorda sempre entre fogos e águas borbulhantes. As bancadas nuas se vestem de ingredientes, se armam de facas e outros instrumentos, panelas exalam cheiros e calores. E eu vou para o aipim novamente (minha iniciação tinha que ser com esse ingrediente que eu amo tanto!): tirar fios, amassar, preparar a base do aligot, que deve ser lisa, macia, sem nenhum resquício de sua massa fibrosa e terrosa. Durante aproximadamente quatro horas (talvez cinco!), amassei, averiguei vestígios de fios, mas enquanto isso, da minha bancada solitária, consegui observar a cozinha toda à pleno vapor. 

E num piscar de olhos, vi a poesia: uma poesia viva, quente, pulsante. Um poema feito à várias mãos, quase uma dança em que todos devem estar no mesmo compasso, para que não haja atrasos, falhas, choques. Um poema que dança entre fogos, mãos, facas, assados, cozidos, legumes e panelas. Panelas e pessoas. Vozes que gritam, respostas que acusam pedidos que não se sabe a quem são dirigidos, mas a equipe sabe. Cada um sabe exatamente onde deve estar. Um poema que desliza de uma pessoa para outra, não sem fricção, naquele espaço exíguo que é uma cozinha real, um poema que não se sabe bem com o que rima, um poema que brota entre águas ferventes, chamas que se anunciam quando a panela dança mais acelerado, facas que fatiam tão rápido e tão pequenos pedaços de coisas, essa poesia que é quase vida, é poesia que chega ao prato, que do tumulto e do entrelace de várias pessoas, chega à mesa do desconhecido, quase em silêncio. 

Citando H.H. “a colher de súbito cai no silêncio da língua”, quando essa desconhecida, esse desconhecido, prova e fecha os olhos. E o poema escorre corpo adentro, poesia de realidade que quase ninguém sabe (é em silêncio e em segredo, que a poesia abre espaço em nós), é uma poesia feita de todos e quase ninguém. Ninguém porque o que senti ao observar isso tudo é que a dança da cozinha real é feita de pessoas que escutam a mesma música, e dançam tão amalgamadas que parecem um só corpo, são todas e nenhuma: poema que se faz comida. Essa poesia de uma cozinha real (não que a nossa de casa não seja – mas a de casa é nosso abrigo do “mundo lá fora”, é feita de um nós íntimo), essa cozinha tem a pressão da vida, a urgência do tempo do outro, desses muitos mundos que se encontram aqui, ali, quase nunca para saciar a fome, mas sim, ter o prazer da experiência do poema. A cozinha real é poesia, é poema escaldado, fatiado, fragmentado que se une aqui, nesse prato.

De iniciante para iniciante, aqui vão as minhas dicas:

  1. Não fique tensa: você vai errar muito;
  2. Corte as cebolas (os tomates, a salsinha, a cebolinha…) o menor que puder;
  3. Leve bandaid: você vai precisar (consequência direta do item 2);
  4. Não faça tudo muito lento (nem muito rápido): você vai encontrar o ritmo certo (eu também);
  5. Aceite ajuda, observe os mais antigos, respire, fique tranquila, você não será tão ruim que não possa melhorar, e não será tão perfeita quanto espera que seja;
  6. Eu, você, e todos nós, somos humanas, demasiadamente, humanas 😉 e a cozinha real é real.

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