“Talvez ela tivesse percebido que a ponta dos seus dedos brilhavam, feito vagalume, quando tocavam em coisas que o deixavam feliz. Mas, se ficassem juntos, ele teria de contar sobre esse fato luminoso. Foi exatamente o que ela pensou enquanto seguiam para o restaurante. Tomaram um tanat, comeram comida típica do lugar. Ela tentando ignorar os pássaros que cantavam em sua cabeça, ele tentando disfarçar o brilho dos dedos toda vez que roçavam o braço sardento dela. Ao final da noite, perto da despedida, um silêncio tomou conta dos dois. Onde estariam os pássaros? Teriam saído? Passou a mão pelos cabelos e lá estavam o ninho e os pássaros, quietos, quietinhos. Estariam dormindo? Tristes? Preocupou-se e então sentiu uma dor de cabeça. Ele perguntou, O que houve, Minha cabeça está estranha, dói, então ele passou de leve os dedos pelos cabelos dela, roçou os pássaros, o ninho, a palha, seus dedos brilhavam um amarelo-sol. Ao percorrerem os fios, a cor dos cabelos, reluzia tão forte que os pássaros se alvoroçaram, desataram a cantar, primeiro de medo, depois de alegria. Naquele fim de noite, praticamente ninguém viu nada de estranho naquele casal que se beijava pela primeira vez, afinal, o amor é um nada de muito pouca coisa.”

Conto A Apaixonada – ou pássaros na cabeça, do livro “As Mulheres – ou sobre muito pouca coisa” (2016), de Adriana Antunes.

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