Batidas na porta.
Tempo que passa.
Os passos percorrem séculos.
Onde havia deixado os óculos? Pergunta dispersa, para afugentar a visível cegueira.
Abriu: ninguém.
Nada.
Só a paisagem rotineira e tediosa. Continuou parada, esperando. O quê? Não sabia.
E o cheiro entrou. Talvez o toque macio tivesse se chocado contra a porta trancada. Cheiro de passado. Tão fundo, tão denso, que tomou forma: indefinida.
Passou a mão pelo rosto, pelo corpo para saber.
Era ela.
Fechou a porta. Mas o passado já havia tomado seu lugar, o dela.
Meus óculos? Agora não importa. Não quero mais.
E o bolo de chocolate à espera de cobertura: de chocolate também. Muito doce para aplacar o gosto do passado que amarga a boca. E depois de usar como medida os olhos sem óculos, a panela foi ao fogo. E continuava frio. O cheiro cada vez mais fundo. Denso: como as nuvens de chuva ao longe. Chuva de verão.
O chocolate amolecendo, borbulhando, e soltando o delicioso odor de… chocolate. Aconchego. Frio, bolo, chá. Chá de quê? Frutas. Acho que vi alguns saquinhos na gaveta.
Água a ferver, chocolate derretido, a toalha, a mesa.
Tudo com calma, com tempo. A chuva virá e a noite também.
Cortou alguns pedaços do bolo, colocou o disco na vitrola: A comme amour. Gostava de música francesa. Ainda mais em dias frios e chuvosos. Com bolo e chá. Mas era verão e o dia glacial estava nela.
Era ela.
Provou o bolo, com uma garfada afoita. E sorriu. Mas o sorriso escapou-lhe da boca. Sorveu um gole de chá quente e recostou-se na cadeira. O cheiro do passado condensando-se, trazendo cada vez mais perto a chuva. E trovejou lá fora. E ali dentro o chocolate foi muito doce, o cheiro foi muito fundo, e a camada de gelo derreteu. O chá abrandou o frio que ela sentia, e os olhos álgidos escorreram pela face.
Chocolate. Chovia. Chorava.
O frio e o passado saíram porta afora, fartos de tanto doce.

Um comentário em “Chuva e chocolate

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