Não entremos em distinções entre real, fictício e imaginário. Não. A vida é fácil demais, não coloquemos arabescos e colunas barrocas em lugares desnecessários.

O que eu queria mesmo era a medida exata de luz e sombra. Por mais que pesos e medidas estejam longe de enquadramentos.

O que eu queria era uma pessoa de verdade: menos luz, mais sombra? Às vezes. “Eu tenho medo de estar me apaixonando por você”, “eu sinto tédio tantas vezes…”, e “não, eu não sei se vou conseguir ser quem eu gostaria”.

Eu queria mesmo é que na hora certa, a luz se acendesse e você dissesse: “e essa cicatriz? Eu não gosto dela” (e isso não doesse), e eu pensasse: “Eu gosto. Me faz lembrar que tem coisas que doem”. E sim, o mundo sangra também. Não é só rosa: é muito vermelho.

E entre luzes e sombras, que as pessoas descobrissem que nem tudo que é profundo, é bom: às vezes afoga mesmo. E que nem sempre superfície é só raso: às vezes é pele com pele, pelo com pelo, e nem tudo é sexo, e muitas vezes é só isso sim.

Eu quero confessar minhas (muitas) fraquezas (e dúvidas), e algumas (poucas) fortalezas.

Amo em mim a poesia que me escapa. Em ti, posso vir a amar as cores ou um preto-e-branco assim, desbotado. Quero gritar quando meus hormônios mandam o mundo à merda, e quero que essa pessoa de verdade, não passe a mão e me diga: “vai ficar tudo bem”. Nem sempre fica. Não agora. Pode ser que depois.

Quero ler meus rascunhos e saber que ainda não são obra-prima. E quero que esse alguém de verdade me diga: “é uma merda” (e isso não arregace feridas), “é uma merda, mas eu gosto de você mesmo assim”: sendo de verdade.

Eu quero que esse alguém de verdade, veja em mim, um eu verdadeiro: de carne, osso, espinhos, lixo (reciclável) amontoado, medos e (in)constâncias.

Quero luz e sombra na medida exata de um não-entendimento, inversamente proporcional ao tudo que se pensa. Sim, quero a liberdade de ser surreal (não na gíria, no movimento artístico também).

Quero dizer: “me dá colo?” e receber “não” (sem me importar com futuros).

Eu queria dizer “cascalho”, e essa pessoa de verdade, simplesmente saísse correndo, e (talvez) nunca mais voltasse: e eu estivesse assim, leve com a partida.  Queria dizer “não” e fosse não mesmo (e nem eu, nem você, doesse com isso).

Que ela dissesse: “não gosto disso” (não gostando), e eu ouvisse e aceitasse (aceitando).

Que fosse assim, hoje, agora, e que nem por isso chegaria a ser amanhã, ontem ou depois.

Eu queria que em algum ponto entre o meu corpo e o teu, existisse um espaço sem tempo, sem voz narrativa, sem primeira ou terceira pessoa: queria ter déficit de atenção, dislexia ou gagueira – e que isso não mudasse em nada a (in)definição.

Eu queria que essa pessoa de verdade existisse assim: em algum lugar.

E eu precisaria existir assim, na medida exata entre minha(s) luz(es) e minha(s) sombra(s). E às vezes escureço. E nem sempre tenho coragem de acender a luz.

Um comentário em “Falemos de amor

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