Stephen King prescreve o ritmo de 2.000 palavras por dia. Dias santos, feriados ou funerais: 2.000 palavras todos os dias. Pode parecer simples produtividade (num mundo em que produção é fundamental) e nenhuma qualidade. Sim, pode ser. Mas não é essa a minha leitura. O fato de você querer correr uma maratona faz com que você tenha que ir treinando, adaptando, acostumando o seu corpo para atingir o objetivo. Você não acorda um dia e diz: “bom, hoje irei correr quarenta quilômetros”.

            Murakami também faz a associação entre escrita e corrida. Escrever 2.000 palavras por dia fortalece os músculos das palavras, dá fôlego ao texto, e flexibilidade ao pensamento. Mas não é só isso. Existem as duas mil palavras por dia. Há o 1º draft, a revisão, o segundo rascunho, o tempo de gaveta, os beta-readers: sim, há um “cansável” caminho pela frente, muita quilometragem até que se consiga ir de Atenas à Maratona. E quem sabe até, exausta, sucumbir após anunciar as boas novas.

            Há manuais de “como escrever um romance em trinta dias”, simples cálculo: 2.000 palavras/dia x 30 dias = 60.000 palavras, o que equivaleria a um romance de porte pequeno. Se ele será um “Ulysses” ou algum tom de cinza aí são outros quinhentos. J.R.R.Tolkien não escreveu sua saga em trinta dias, sua criação não foi resultado matemática de uma linha de produção.

            O brasileiro Ryoki Inoue ganhou o título de “escritor mais prolífico do mundo” pelo Guinness (1.099 livros até o momento). Ou Kafka e “A Metamorfose”, novela concluída (segundo ele) em vinte dias.  Não é o tempo: é o trabalho. E os diferentes resultados da combinação entre palavra, suor e escrita. Há esforço, trabalho, reescrita, (trabalho), rascunhos e – trabalho – mais rascunhos. E o tempo é aquela gaveta em que o texto repousa alguns meses (às vezes anos), para depois ser relido como que retirado do esquecimento.

            Mas na atualidade o tempo desintegra parágrafos, os blogs explodem em contagens regressivas, e os autores se multiplicam em progressões astronômicas. Há livros e leitores para todos os gostos. A proposta aqui é falar das 1.999 palavras ou daquela uma que fará alguma diferença.

            Em “On writing”, Stephen King conta uma história de Joyce. Um amigo encontra Joyce à beira de um ataque de nervos. O amigo descobre que o problema era a escrita: Joyce havia conseguido apenas sete palavras. O amigo tenta consolá-lo, que ao menos ele tinha as sete palavras. E a resposta de Joyce foi: “mas eu nem sei qual a ordem delas!”.

            1999+1 traz palavras alheias e próprias, compartilhar de experiências na arte da escrita. Ao leitor cabe o juízo final. Os academicismos deixaremos de lado. O que queremos são palavras que, se não modifiquem o mundo, ao menos mostrem outras formas de escrita. Ou uma nova forma de ler o mundo. Palavras não são apenas números.

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