E quando ela disse “vem, amor”, a porta foi arrancada, as janelas escancaradas tiraram o mundo do eixo, o vento arrastou cortinas e devastou quartos e salas. As folhas espalhadas pelo chão – era uma outra história-, os tapetes voaram para os jardins – mais mágicos do que a própria magia -, os quadros saíram de suas molduras. E  dançaram.

“Vem, amor” era a certeza de tudo que era incerto.

“Vem” era o convite de habitar e ser habitada: um espaço para sempre inabitável – aquele outro, aquele corpo, que nunca seria.

“Vem, amor” era o gesto que pela estrada percorria vidas e pensares, ires e devires.

Esse “vem” já era indo, para sempre indo, movimento infinito: sem saber chegar. Sem precisar chegar. E ir outra vez, e mais outra, até nunca mais.

“Vem, amor” era o chamado que principiava uma civilização, uma escrita, hieróglifos, pintura rupestre na caverna do começo da vida. “Vem” era o verbo, a luz, e o descanso final.

Vem: fui, vou, estou indo, amor.

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