É que antes havia sol, e agora aquela nuvem ali encobriu tudo, fez sombra e cansaço, não? É que ontem foi domingo, e hoje segunda, com cara de segunda mesmo, sem poesia sem pausa sem tempo ou espaço pra sorrisos. Quando tem sal demais, açúcar dentro, agenda lotada, é quase um mundo inteiro: e na mesma hora. E isso cansa. E perde a cor. Ar que falta e peso que sobra. É quando lunação deixa de ser palavra poética e começa a fazer parte de cifras de 29,53-alguma-coisa-dias, e não apenas fase. É quando olha o dia morrendo e aquilo é só fim de dia mesmo, enterrados minutos segundos horas de peças que para sempre se perdem ad infinito (e porque o meu corretor quer que o infinito esteja aqui, sem latim sem nada).
É porque estar aqui, neste piscar de olhos, entre silêncio e pensamento, fome e tédio, ponteiro parado, não é fácil. Exige que, ao ouvir o grilo na noite que chega, eu me pergunte: nesse galho vazio era que ficava aquela pequenina mancha verde azulada, chamada beija-flor?

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