Transparências

1.(D)Unas

Meu corpo, outro corpo, lento, quieto, profano. Minha marca inscrita, sagrada ali naquela pele estrelada, e para sempre aqui, nessa fronteira que me separa desse outro que, do outro lado, busco: deserto interminável.

E a sede. Miragem. Vertigem.

Microscópicos grãos brotam da palma da mão, gotículas tão mínimas rebrilham naquelas costas desenhadas, tão pequenas, orvalhadas de sonhos?

Atravesso desertos imaginados, e dessa tribo distante, descubro mapas noturnos: é pelo céu que se vai ainda mais longe.

Na distância, areias me arrastam, e danço: danço entre véus e voz, redemoinho de lendas. E outra vez, (en)tendas.

Vermelho

2.(Am)Ar

É o ar que aproxima os corpos. É esse espaço rarefeito, feito distância que se desfaz. Entre um corpo e outro, esse ar que enlaça a cintura, sopra segredos, arrepia a nuca e embala saias.

É ar: que me falta, e tu, respiras? Inspiras.

Esse ar quando em fúria tem momento de vento: leva perfumes secretos, rouba as folhas do diário, beijos lançados sem métrica. É o (am)Ar que faz esse corpo sentir o trêmulo toque daqueles dedos inseguros que esboçam um mapa de desejos: mas ela não sabe desenhar.

Verde

2.Oásis

Não canso de escrever tempestades: sou chuva, relâmpagos e ventos. Dunas que caminham e percorrem o mundo. Ar que devassa espaços vazios.

Esse cheiro, essa água, essa massa líquida não lava nada: rega. Embebida, canto. Canto e danço: como lençol em varal, com suas alvuras e alturas.

Aquela pausa antes do fim. Aquela nuvem negra que ameaça céu e terra. Essa pele que se arrepia assim, lírica e louca, diria em poesia. Mas não. Aqui não é poema ou prosa, é só chuva.

E é tão mais.

É um oásis que levo no olhar.

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