Aqueles que me conhecem um pouco, já sabem que ao abrir a primeira pétala, o texto que floresce dentro de mim é sempre o mesmo. Então, para não deixar o ritual esmorecer, aqui vai novamente, ela, sempre ela, Clarice à primavera:

“Nesta dormente primavera, no campo o sonho das cabras. No terraço do hotel o peixe no aquário. E nas colinas o fauno solitário. Dias, dias, dias e depois – no campo o vento, o sonho impudente das cabras, o peixe oco no aquário – tua súbita tendência primaveril ao roubo, e o fauno já corado em saltos solitários. Sim, mas até que venha o verão e amadureça para o outono cem mil maçãs.
Como a fruta e jogo fora a metade, nunca tive piedade na primavera. Bebo água direto na fonte da rua, não enxugo a boca com o lenço, perdi o lenço e perdi o inverno, nada lamento, nunca tive piedade na primavera. De algum modo olho pelo buraco da fechadura e vou visitar-te na hora sagrada de teu sono, nunca tive piedade na primavera. Quanto à piscina, fico horas na piscina, estremecendo aos últimos frios do inverno estremecendo aos primeiros frios das folhas. Olha só a piscina! Olho, áspera. Nunca tive piedade na primavera.”

( Suíte da primavera suíça – Clarice Lispector – Em “A descoberta do mundo”)

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