Tem fantasmas no Bar de Baco. Eles chegam depois da meia-noite. Só os frequentadores mais atentos percebem a palidez extrema, os olhos vítreos. Se não há mesas livres, eles se acomodam nas cadeiras vagas. Comigo. Com você. E bebem vinhos de safra e afogam mágoas passadas. Toda terça-feira, uma alma feminina aparece. Descolorida como a água mais pura. Sua roupa branca tem reflexos azuis. E ela chora feito criança entre goles de chardonnay. O nome é mara, maria ou mariana. Tem nome de mar, cheiro de maresia. Desistiu de Antônio, que tinha outra mulher. E afogou-se entre as ondas, bêbada das noites insones, vazia de traição e desejos. Mas hoje ela vai ter companhia. Noite de glória no Baco. Antônio chega para o último brinde. Último gole, último beijo, último resquício de desespero. Depois é o nada entre nuvens de chardonnay. E terças-feiras consecutivas, vivendo a morte no Baco.

(Ângela Broilo. O Bar de Baco e outras histórias. Maneco Editora, 2003.)

Ângela Broilo é escritora. O seu romance “Hiperestesia” foi o vencedor do Concurso Anual Literário de Caxias do Sul – RS (2010). Em 2012 ganhou o prêmio Ages (Livro do ano).

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