Era do corpo que nascia o sol: mais precisamente, naquela curva do queixo. Em dias nublados, a névoa subia dos tornozelos, se escondia por detrás dos joelhos. Passarinhos esvoaçavam por entre as madeixas, e as flores abriam-se na palma das mãos. Por entre os dedos, brotavam nascentes, e no dorso nu, se fazia poente. Dos olhos, jardins, da boca, abismo e vertigem. No contorno da orelha ondulavam aveludados pensamentos, enquanto da nuca, sal, mar e verões. Pelas costas, toda constelação. Enrolada no pescoço, serpentes e pecados: todos perdoados. Nos braços, abraços e outonos, no peito, ar e amar. Do ventre, cresciam ramos, roseiras e futuros. Mas era dos pés, impacientes, que faziam-se os vendavais, os aguaceiros e também os maremotos.

Ali, na beira da xícara, os lábios no líquido negro: o planeta começava a girar.

E eu, translacionava.

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