“A mãe nunca gostou que eu inventasse histórias e então tive de aprender a contar para dentro aquilo que perdeu o espaço do lado de fora”.
“Sim, mulheres falam o tempo todo e falam sobre qualquer coisa, falam se atropelando, rindo e gesticulando. Mulheres quando ficam em silêncio são um problema sério e misterioso”.

Dois trechos do conto A Filha – ou brincadeiras de infância, do novo livro de Adriana Antunes: “As Mulheres – ou sobre muito pouca coisa” que será lançado no dia 05 de maio, na Livraria Arco da Velha (19h), que sai pela portuguesa Chiado Editora (sim, disponível no Brasil e em Portugal!).

Esse conto da filha é recheado de odores, e entre os amigos imaginários, manjericão e tomilho são tão próximos da narradora que quase invadem nossas narinas leitoras. As Mulheres de Adriana cruzam gerações e espaços múltiplos: mães, putas, avós, esposas. Traídas, vingativas, ciumentas e doces. Ricas, pobres, pacientes ou feministas. “O amor é um nada de muito pouca coisa” e talvez eu (e você) esteja “sempre cinco minutos atrasada para alguma coisa”.

As mulheres são sempre já: amanhã e depois. A(s) Mulher(es) queimam feito fogo, roçam madressilvas, voam pássaros, sonham amores. As mulheres são: eu, você, nenhuma e todas nós. Ao cortar a laranja e o dedo, a vertigem do existir: “o que você está fazendo, mulher?”. O que todas nós fazemos: vivendo, amando, pensando, doendo, sorrindo.

Tão muito, tão pouco, tão elas, tão nós. As mulheres, do medo criam força, dos sonhos traçam rotas, buscam aquilo que aqui está, mas vão além: delas mesmas. Porque essas mulheres riem, choram, vivem, sangram. Não são de palavras: são de tempero, doçura e laranjas. São de ciúmes, paixão e indiferença.

Essas Mulheres, nós, mulheres, somos (re)leituras de nós mesmas, numa mistura híbrida de cabelos, sujeira, amor, asas, coragem, angústias, passos e voos. As mulheres de Adriana são minhas, nossas, e delas mesmas. Não são contos, são vida.

Somos tão todas, e quase nenhuma.

Você me assusta, às vezes (…) você seria capaz de fazer isso, perguntou. (…) Ela sorriu e de costas para ele, ainda nua, sentiu uma vertigem lilás que emanava das madressilvas que espiavam pela janela, mudas, e observou que finalmente começava a chover”.

As Mulheres – ou sobre muito pouca coisa. Adriana Antunes – Chiado Editora. Capa ilustrada pela própria autora, com apresentação de José Clemente Pozenato.

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