Ele não era rei. Nem Arthur. Mas era o convidado daquela noite. Era o convidado de honra. O único homem. E não se sabe se perdeu a hora, o respeito ou a coragem, mas o que se sabe é que não apareceu. Nem avisou o motivo. Simplesmente assim: desaparecido na noite chuvosa.
O restaurante era fino. Ou metido à. E caro.
As damas também eram finas. Quase ladies. Mas não entraremos em méritos, descrições ou medidas a respeito de cada uma. O que importava era o todo: a távola.
A mesa era perfeita: para casais que estivessem casados há anos, e não tivessem mais nada a dizer um ao outro. Ou que precisassem sentir uma certa ausência um do outro, para sentirem saudade, na distância. Era uma mesa ampla, espaçosa, quadrada. O espaço entre as comensais era imenso, e as palavras se perdiam ao tentarem a travessia, morrendo estiradas na mesa faminta.
E veio o cardápio: casserati masserati com ossobuco, marinado, gratinado, fatiado, ou seja lá o que for, por 1.001 noites e alguns quantos dias… E uma das damas perguntou:
– É de comer? Esse tal de ossobuco… – porque elas eram finas, mas não frescas.
O garçom explicou, sem minúcias e nenhuma precisão:
– … é tatu…
Optaram pelas sugestões da chefe (leia-se chefe mesmo, pois não era chef, mas chefe e dona daquela mesa quadrada).
As panelas chegaram. Panelas caras, coloridas, bonitas mesmo. Mas intocáveis, caniculares, se me permitem a expressão. Não havia como tocá-las sem assar os próprios dedos.
Então, as finas damas, descendo de suas finuras, tiveram que levantar seus traseiros das cadeiras, quase mergulhando suas echarpes, cabelos, mangas, dentro de pratos, vinhos e molhos, para conseguirem chegar ao centro da mesa, às panelas caras, à comida. Aos poucos, sentiram-se como amazonas em busca de suas caças, sua sobrevivência: ambiente fino, mesa hostil.
Após a luta travada entre talheres, panelas e comidas com nome e sobrenome, saciadas constataram: a melhor mesa é aquela em que os pratos se apertam, os talheres se entrelaçam, os olhos se cruzam, e a conversa pode deslizar suavemente de uma fome à outra. Ou, se for do gosto, em silêncio: comendo com os olhos.
E ele, o convidado desaparecido, único homem, não teve coragem de liderar aquela batalha travada naquela távola. Perdeu toda a honra. Elas tinham muito mais colhões do que ele. E não eram nenhum pouco quadradas.

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